29 de setembro de 2006


NEWS FLASH

Pausa para partilhar com os meus leitores de romances que o meu livro acaba de mudar de título. Dito assim, soa frívolo. Mas, do lado de cá, é um bocadinho como uma vala que se abrisse entre mim e o que escrevi. Tenho de ir à floresta à procura de uma árvore que possa estender entre o sítio em que eu me encontro e pedaço de terra onde as histórias estão a acontecer. O LIVRO DA GLÓRIA jaz lá no fundo. Caído pelo peso da sua pomposidade. Sinto por ele alguma compaixão, mas teve o destino das coisas que não se sabem adaptar ao novo curso das coisas. Estou no escuro e os nomes que aparecem, ao fundo, são ainda pássaros sem nome voando sobre palmeiras...
RUA SENHOR SILVA (ESCRITOR)

A propósito e-mail enviado por Vera Futscher relativo à demolição da Casa de Garret em baixo referido:

"A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado." http://www.casadegarrett.blogspot.com/ .

A questão de fundo é que não gostamos dos nossos melhores. Dos que nos acordam para aspectos da vida em que nunca teríamos pensado. Dos que nos levantam da nossa propensão natural para o troglodita. Ouvimo-los com ar blasé, como se também fôssemos capazes de descobrir as mesmas coisas sem ajuda. Que ninguém nos incomode com o pensamento de que seria bom assegurar que esta vida, generosa para nós, pode precisar de coisas como alimento, um tecto, o nosso agradecimento. Ou simplesmente ser lida. Fizemos isso com todos os que nos precederam: Camões, António José da Silva, Pessoa, o Miguéis. Não destruímos o Saramago porque ganhou um Nobel. Mas não há dia em que haja alguém que lhe não roa as canelas. E todos os dias nos esquecemos dos nossos poetas vivos. Dos prosadores com mais de 70 anos e que insistem em se manter entre nós para lá dos livros da escola. Ficamos calados à espera que morram. Que parem de nos esfregar na cara que não somos todos iguais no deslindar do mundo. Que há quem veja um bocadinho mais à frente na escuridão que nos envolve.
Depois de mortos, damos os seus nomes a ruas de subúrbio que mais tarde ou mais cedo farão parte da gigantesca metrópolis.
A casa do Garret vai abaixo? Normal, pelo que atrás foi dito. Pessoalmente preocupo-me mais em que o almoço do Cesariny lhe chegue quente a casa. Ou que nunca falte ao Herberto Hélder com que se abrigar. Mas tem a Vera razão quando refere o desprezo pela cultura. Acontece, que já o Eça (quase todo publicado postumamente) o dizia. E ainda estava vivo.

26 de setembro de 2006

ATRIBULAÇÕES DE UM MONGE COPISTA

Alguém deveria prevenir os aspirantes a escritor da existência da revisão. Quando se compra um livro imagina-se, geralmente, que está ali o fruto de alguma inspiração e de umas noitadas de trabalho (coisa de prazer e êxtase). Não é bem assim. Um romance é fruto de um longo trabalho de investigação, tentativa de domesticação de ideias díspares e muitos, muitos dias em que não se fez mais nada. Com o tempo e a experiência, este trabalho torna-se, ao contrário do que se possa pensar, mais lento e moroso. Os pormenores ganham uma importância extraordinária e a compreensão de que nada deve ser deixado ao acaso, apossa-se de nós.
Por isso, nesta noite, em que vou terminar de avalizar e acrescentar o enorme esforço do revisor, vejo as 397 páginas, subdivididas em 89.792 palavras ou 514.042 caracteres, como uma paisagem extensa que aguarda, tranquila, os leitores. Debruço-me sobre as sinalefas vermelhas e sobre as frases que construí ao longo destes anos com a concentração do copista. E constato que a impaciência que me tomava dantes pelo aperfeiçoar dos textos escritos desapareceu.
Resta a serenidade e, se tiver sorte, a Literatura.

24 de setembro de 2006


Há dias que (re) equilibram o desconserto do mundo. Por algum tempo.
A FRASE DA SEMANA
...veio do Ricardo A. Pereira, no the SUN: "Duvido que Santo Agostinho dissesse tão bem de Cristo como (Luís) Delgado de Santana". Lol!




18 de setembro de 2006

AINDA A MEMÓRIA
A Internet e outros suportes/transmissores de imagem e som trouxeram uma mudança ao conhecimento humano que ainda não conseguimos avaliar. Mesmo para as gerações jovens era impossível até há pouco tempo ter a certeza exacta de que um filme ou uma música assistidos na infância eram verdadeiramete como nos lembrávamos. A tendência da memória de longa duração é a de eliminar os pormenores não-essenciais e de dourar os aspectos vulgares. Daí que se fique feliz com a memória de um passeio à Costa ou de um filme em que a protagonista era uma lontra. Os dvds, com a republicação dos êxitos vintage vieram alterar tudo isso. A qualidade ou está lá ou não (é por isso que o José Barata Moura será sempre grande e o Avô Cantigas não se safa...).
A internet vai mais longe. Deixa-nos reconstituir ao detalhe aquilo que conhecíamos, solidificando de forma exacta a memória. Não sei se isto é bom ou mau. Mas uma lucidez qualquer é capaz de nascer desta situação.

CONTEMPORÂNEO OU A MORTE

Dá-me sempre vontade de rir assistir ao deslumbramento das pessoas pelo que é "moderno", "actual". Pelo artista que retrata o seu tempo, como se nessa identificação pudesse haver outra coisa que não seja o mero reflexo do que se está a viver. Há, nos meios intelectuais, uma atracção compulsiva pela "última linguagem", que amanhã será a "linguagem out", tal como o último deslumbramento já passou, sem que se tirassem daí as necessárias conclusões sobre a noção de "temporal".
Para quem ainda tiver dúvidas, fica este exemplo onde todos os detalhes foram estudados à exaustão... na óptica dos anos 80.



ps: I rest my case.

17 de setembro de 2006

A ESPADA INFLAMADA DE DEUS

Grupos islâmicos já vieram incendiar igrejas e ameaçar o Papa de morte... por este insinuar que a religião islâmica é frequentemente usada como um instrumento de violência.
Sou eu que estou a fazer confusão ou é isto que se designa como "uma contradição em termos"?...

14 de setembro de 2006


HAVANA, FILME PERDIDO

O que acontece quando um actor de Hollywood arranja dinheiro para realizar o seu sonho de dirigir um filme, esquecendo-se que um bocadinho de talento, um réstea, um tremeluzir... seria útil? É assim LOST CITY, o pavoroso filme de Andy Garcia. Quem quiser ver um actor a fingir que realiza, enquanto copia todos os clichés do mundo, faça favor de ir comprar bilhete. Os mais sensatos, abstenham-se. Eu fui ao engano, no Optimus Open Air. E, apesar do bilhete ser de graça, ainda tive vontade de ir pedir o reembolso.
Fujam!

10 de setembro de 2006

PARTILHAR


Em conversa com A. lembrei-me desta crónica, publicada originalmente no JL e o ano passado, n'O MEU QUERIDO TITANIC. E porque está calor e ainda falta muito para se ouvirem os guizos, se enfeitarem as árvores e se pensar nos outros, publico-a aqui. De graça, para os meus não-leitores de livros.


"MERRY CHRISTMAS MR. GOD

Está frio, na minha sala com quadros na parede e um sofá simples mas confortável. Arrefeceu bastante, este Inverno. Daquele frio estúpido de quem mora ao pé da água e longe de montanhas que tragam neve. O telemóvel toca. É um amigo que mora longe e tem um motorolacinquenta. Dói-lhe já não sei o quê. Mas nada que não possa curar com um ida ao médico que ele poderá pagar. Vem-me à cabeça a imagem de um dos muitos sem-abrigo que se espalham pela cidade. Aquele telemóvel dava para umas quarenta refeições decentes, pelo menos...

Na televisão passam projecções eleitorais e agitar de bandeirinhas. Quanto terá custado todo este circo partidário? Não foi de borla, de certeza... De boleia com um motorista e dono de pequena agência publicitária, na província, fiquei no outro dia a saber que os outdoor são, agora, feitos em vinil. Para não se estragarem com a chuva, diz-me. Por umas centenas de contos podemos ver a cara escarrapachada dos candidatos ao poder, até o Chico vir da areia. O que quer dizer, por mais tempo do a duração das suas promessas. Ainda bem que se evoluiu: já parecia mal ver os papéis dos cartazes a murcharem em direcção aos buracos das ruas. Afinal já somos Europa.

Esta tarde, um actor de telenovela afirmava que "Natal era tempo de pensar nos outros". Fiquei varado de espanto. Nunca teria esta revelação se não fosse ele? Durante uns dias vamos dividir o que normalmente puxamos só para nós. Só não percebi se o prazo acabava mesmo à meia-noite de dia 25 ou se me era permitido ajudar os menos afortunados de vez em quando...

Já é tarde. O alcoólico que costumo ver deitado em papelões num recanto da D.Luis I já deve estar a dormir. Com que sonhará ele? Provavelmente com uma cama macia e um cobertor por cima. Lembro-me de Primo Levi, um escritor judeu italiano que sobreviveu a um campo de concentração, e interrogo-me em nome de quê conservamos gente a passar fome às nossas portas.

Imagino uma oração que começasse assim:

"Bem-aventurados os que acreditam que é necessária uma quadra festiva para se estar com os outros; os que julgam que o mundo é o mesmo desde que Deus o criou e que sempre assim será, ou por que outra razão ele o teria construído imperfeito; os que constroem estradas sobre estradas não se lembrando que um círculo não é mais que a junção de duas rectas tontas que não sabem onde para onde vão; os que defendem os direitos dos fumadores contra os fanáticos da saúde e que julgam ser sua a voz que lhes sai da garganta e não o som da droga mascarada de coisa avançada; os que se suicidam em nome de Alá, primos dos que mandaram executar judeus em nome de Cristo e irmãos dos que avançam com tanques pelas palestinas terras escritas sabe-deus-por-quem num bestseller chamado «Bíblia» e que tomam um prepúcio mutilado pelos homens como um sinal de imunidade divina; os que votam em candidatos que dizem transformar cidades-inferno em jardins-paraíso com um toque de magia; aos que têm tomates para mentir descaradamente a indispensabilidade de Valores Absolutos, enquanto à noite despem o fato e partem para engates nos seus carros de dez-mil-contos-pra-cima; às mulheres que dizem votar em consciência contra a despenalização do aborto e, na semana seguinte, vão (usando a expressão M.E.C.iana) «abrir as pernas a Londres», livrando-se do descuido; aos brancos que constroem casas à prova de pretos famintos; aos pretos que constroem casas à prova de brancos esfarrapados; aos preto e brancos que constroem casas à prova de todos os que não são iguais a si próprios; aos que julgam que o dinheiro que metem ao domingo na caixa das esmolas para a Senhora do Imaculado Coração, ou paras almas do Purgatório, vai direitinha aos pobres do mundo; aos que caminham embriagados para as catedrais de futebol e, beijando os cachecóis, dizem: «Isto é que é sagrado»; aos que julgam que as vozes discordantes se calam com manobras perversas, murros na boca e despedimentos; aos que bateram hoje nos seus filhos, julgando estar a dar-lhes uma mensagem de amor; às mães que se julgam pai e mãe; aos pais que se julgam mãe e pai; aos que cortam o cabelo no mesmo barbeiro do pai, porque não concebem que haja outra forma de talhar o bonito louro; aos que criaram uma ruga no meio da testa por tanto criticarem o mundo em vez de tentarem compreendê-lo nas suas imperfeições; aos jovens que acreditam que serão assim para sempre e que não existe nada para lá da perfeição dos seus corpos; aos Pais-Natais que se juntam às portas dos centros comerciais deixando as crianças confusas com o milagre da sua multiplicação; aos mesmos que descem de helicóptero em colégios pobres ostentando os logos das empresas patrocinadoras... Porque é deles, segundo o bestseller, o Reino dos Céus.

E já agora..." Bem-aventurados:

Os que abraçaram hoje de manhã aqueles com quem vivem; os que se voluntarizam todo o ano para encontrar roupas, comidas e palavras de reconforto e levam tudo isso aos vãos de escada húmidos, tresandando a urina; aos que acreditam que é possível viver sem mentir aos outros; aos que crêem que o mundo é mais imperfeito que a Vida; aos poetas, por verem as várias dimensões do mundo e tentarem pôr em palavras a linguagem do Invisível; aos frades de toda a espécie que se levantam cedo e no desconforto das suas celas se sentem felizes por estarem habitados por uma luz maior que natural; às mulheres que lavam escadas para pôr o pão no prato de filhos que, em troca, lhes cospem em cima e reclamam ténis de vinte contos ou mais; aos homens que amassam cimento e pregam tábuas, em silêncio, para que atrás referidos atletas se divirtam em tertúlias e orgias de batas pretas e cervejolas; os que atravessaram continentes para no meio de línguas estranhas e máfias exploradoras tentarem criar uma família; os que irão morrer por estarem algures no mundo a dar vacinas e a meter colheres de alimentos na boca de crianças com a face coberta de moscas, enquanto à sua volta, famintos desconfiados discorrem sobre o que fará este estrangeiro no meio deles e se será muito difícil estrangulá-los e fugir com o seu relógios que parece valioso Bem-aventurados os que amam... Porque deles, deveria ser o Reino da Terra..."

Estranho... De repente, a minha sala amornou... Feliz Natal."

in O MEU QUERIDO TITANIC

9 de setembro de 2006

IIn Nomini Patre, et Filii...



O VÍCIO DAS SÉRIES...



ESCUTAS DOURADAS

Por uma vez, as nossas pides de trazer por casa não gastaram o seu tempo a gravar os mexericos das actrizes das novelas e a vendê-los aos jornais de escândalos. Usaram um bocadinho dos seus dias de trabalho para tentar encontrar provas para aquilo que todos nós sabemos há anos e anos. Mas não servirá para nada, este esforço, enquanto tivermos um sistema judicial que permite que uma prova "deixe de existir" porque não foi cumprida uma formalidade legal. Enquanto não se tirar esse inacreditável tapete dos pés dos advogados pagos a peso de ouro pelas máfias futebolísticas e outras, a ideia de "Justiça" não passará de uma anedota. "Vi, ouvi, houve crime, mas o guarda republicano esqueceu-se de preencher a alínea 22 do formulário, por isso, vá na paz do senhor"... Ora tenham dó da gente.

7 de setembro de 2006

...QUANDO NASCE É PARA TODOS

Dizem-me do Céu, que já esgotei o número de comentários sarcásticos até ao final do ano. É difícil dizer bem, é certo. Mas temos de fazer um esforço. Por isso lá se vai o post sobre o "Sun"...

A DINASTIA

Um grupo de pais e de filhos, vestidos com roupas de opereta, fazem a mesma cara com que os juízes da coroa julgaram o Tiradentes e entram na arena. Vão orgulhosos e felizes por aquecerem as brasas moribundas de uma crueldade que se julgava perdida. Em breve enfiarão ferros na carne de um animal criado apenas para morrer por isto. Pela crueldade. Pela visão da crueldade. Mostra-se o bicho - que até tem nome - e de relance vemos-lhe as carnes que se dilaceram, o sangue que espirra e pressentimos o ritmo cardíaco que dispara. É o pior de Portugal a vir ao de cima.
A pergunta é: o que faz a televisão pública, que devia estar na vanguarda do pensamento humanista, ali? Por que razão, semana após semana, o dinheiro dos contribuintes é gasto com a transmissão em directo da tortura de animais? Alguém me explica?